Direto de Miami Especial: brasileira luta pelo direito do recreio nas escolas americanas

Em poucos dias, as crianças nas escolas do condado de Miami-Dade devem poder desfrutar de recreio, um direito limitado atualmente.  Graças a carioca Debora Hertfelder.

Direto de Miami | Por Chris Delboni

Imagine uma criança de 6 anos das 8h30 às 15h numa sala de aula, sem recreio?

É a realidade de muitos alunos na Flórida, onde o recreio não é um direito estadual, e sim um privilégio, cuja politica é determinada pelos municípios. No condado de Miami-Dade, as crianças da 1a à 5a série, de 6 a 11 anos, nas escolas públicas atualmente tem 20 minutos de recreio duas vezes por semana, ou 15 minutos três vezes por semana.

Mas isso logo pode mudar, graças a uma brasileira, que se uniu a outras mães em Miami na luta pelo direito obrigatório de 20 minutos de recreio diário.

“Minha inspiração foi meus filhos, mas agora estou lutando por todas as crianças”, diz a carioca Debora Hertfelder. “É fora da aula que fazemos amizades.”

Recreio escolar não é um direito de todas as crianças nos EUA. Executiva brasileira lidera movimento em Miami para que se torne obrigatório — e diário — nas escolas da Flórida.

Debora, hoje com 41 anos, se mudou de Atlanta, Geórgia, para Miami há quatro anos, quando seus filhos, gêmeos Eric e Andrew, tinham 7.

Debora luta pelo recreio escolar nos EUA.  Foto: Chris Delboni.

Sempre estudaram em escola pública, e nunca tinham tido nenhum problema. Até irem para 2a série em Miami-Dade, numa escola considerada muito boa e respeitada, em Key Biscayne, onde moram.

“Aqui, os meninos somente tinham recreio duas vezes por semana. Para uma criança, um período escolar de seis horas e meia, dois dias não era o suficiente”, diz Debora, que passou a notar uma certa diferença no comportamento dos filhos. “Eram ótimos alunos, mas começaram a ter problemas, pesadelos e um deles falava que não queria ir mais para a escola.”

A mãe, preocupada, perguntou o que estava havendo e qual o local que mais gostavam de ficar na escola.

A resposta foi um choque.

“O banheiro”, disse um dos meninos. “É o único lugar que consigo ter um descanso.”

“Depois que meu filho disse que o lugar favorito dele é o banheiro, pensei, ‘tenho que fazer algo’”, diz ela. E resolveu tomar uma atitude.

Procurou um grupo de mães que já protestavam em Orlando e organizou com outras de Miami para juntarem forças e mudarem a lei.

Começaram o movimento em fevereiro do ano passado, com forte representação na mídia social, repercussão na grande mídia americana e um petição que, em um ano, já ultrapassou 10 mil assinaturas.

Os projetos SB 78, no Senado da Flórida, e HB 67, na “House of Representatives” – a Câmara estadual, entraram na pauta das sessões legislativas do estado este ano, que abriram em março. Se passarem no legislativo, todas as escolas publicas do estado logo terão a obrigação de abrir 20 minutos diários do currículo para o recreio.

“Todo mundo necessita de um descanso, imagine uma criança?”, diz Debora.

Seus filhos, hoje com 11 anos, não se beneficiarão mais dessa lei, pois em agosto já entram na 6a série, aqui “middle school”, e a politica de recreio é outra.

“Comecei a luta inspirada por eles, mas infelizmente nunca vão poder desfrutar. Então, estou lutando agora por todas as crianças da Flórida para que tenham essas memórias que eu tive – memórias de vida”, diz ela. “O recreio deveria ser um direito fundamental de todas as crianças.”

Os gêmeos Eric e Andrew sentem falta do recreio diário na escola.

Debora se formou em 1999 em administração pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Ainda na faculdade, participou de um programa extremamente competitivo de trainee da Rede Globo no Rio de Janeiro, se mudou para São Paulo, onde trabalhou na Turner Broadcasting, na área comercial, e em 2002, com 25 anos, foi transferida para Atlanta, a sede da CNN. Lá conheceu seu atual marido. Casaram e ela deixou a empresa para fazer um “MBA” na renomada faculdade Emory University. No mestrado, engravidou dos gêmeos. Mas não teve chance de se dedicar a eles como queria. Logo foi contratada pela Coca Cola, e como executiva de sucesso, o trabalho vinha em primeiro lugar.

“A vida inteira sempre fui muito focada”, conta Debora, que vem de uma família classe média carioca, pai militar e mãe dona de casa.

“Sempre tive essa coisa de correr atrás. Com persistência, você realmente move montanhas”, diz. “Quando comecei a querer ter essa experiência internacional, meus pais não tinham dinheiro para me mandar. Comecei a ver, pesquisar, verificar os programas de intercâmbio, que eram muito caros.”

Com 17 anos, conseguiu uma bolsa integral do Rotary Club e foi estudar no México por um ano, na época com o sonho de ser arqueóloga. De lá, seguiu para Wisconsin, nos Estados Unidos, na casa de uma amiga de infância da mãe. Retornou ao Brasil, fez faculdade, e nunca desistiu de seguir carreira internacional. E realizou seu sonho com sucesso.

Mas com dois filhos pequenos, estava sentindo falta de dedicar mais tempo a eles.

Quando surgiu a oportunidade do marido ser transferido para Miami, agarrou de unhas e dentes a chance de deixar o trabalho e estar mais presente na vida dos filhos. Havia trabalhado na Coca Cola oito anos como executiva.

“Essa história de equilíbrio da vida pessoal no mundo corporativo é muito difícil. Se você tem um trabalho, quanto mais alto, mais responsabilidades, mais difícil é conciliar”, diz, orgulhosa de suas conquistas mas pronta para outros desafios.

Sua luta pelo direito de recreio das crianças fez com que reavaliasse sua vida, e retomasse antigas aspirações.

“Essa causa abriu meu sonho de fazer a diferença no mundo, de construir um legado”, diz. “Agora estou trabalhando nessa causa, mas no futuro penso em trabalhar em outras, como empoderamento feminino, que acho que tem muita coisa para se fazer, para mudar e para criar, e também na discriminação contra imigrantes. É outra causa que mexe muito comigo, pelo fato de eu ser imigrante.”

A maior lição para os filhos?

“É bom ser bem sucedido, mas acho que antes de tudo, você tem que ser feliz.”

Assista ao vídeo para conhecer o segredo do sucesso dessa executiva brasileira que se tornou uma ativista em prol dos direitos ao recreio:

 

Serviço:

Facebook
Petição http://change.org

Recess for Miami-Dade Public Students — Em um ano, tem mais de 10 mil assinaturas.Para maiores informações, entrar em contato via e-mail: miamirecess@gmail.com

 

CHRIS DELBONI

Twitter @chrisdelboni
Facebook: https://www.facebook.com/DiretodeMiamiNews/
http://chrisdelboni.com  

 

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Categories: Direto de Miami

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