Brasileiros levam às praias de Miami o primeiro carrinho de água de coco

CHRIS DELBONI – O ESTADO DE S. PAULO

03 Junho 2016 | 14h 09 – Atualizado: 03 Junho 2016 | 17h 01

Leia no Estadão.

Investimento inicial foi de US$ 50 mil para estar de acordo com as leis da Flórida; carrinho e abridor de coco foram importados do Brasil

Quando o economista Mario Cebrian, 40 anos, mudou-se de São Paulo para Miami com a mulher e três filhos pequenos em 2014, uma das coisas que ele mais sentia falta era da água de coco que estava acostumado a tomar no Parque Ibirapuera. Com tantos coqueiros no sul da Flórida, não entendia como não encontrava um carrinho com água geladinha.

“A gente olhava tanta quantidade de coco e as pessoas entrando nos postos de gasolina e drogarias para comprar uma versão de caixinha. Isso sempre me intrigou”, conta Cebrian, que resolveu a saudade com uma nova atividade profissional e, no final do ano passado, levou às ruas, pela primeira vez, seu próprio carrinho de água de coco. “O foco, no começo, foi como eu faço para consumir um coco de verdade? Começou com a vontade de tomar uma água de coco decente com esse calor que faz aqui”.

A vontade foi tanta que um dia ele encheu a varanda de sua casa com coco que comprou de um jardineiro que iria jogar tudo fora. “Voltei com o carro quase empinando; 95% dos cocos da Flórida são jogados fora por medo de um processo se cair na cabeça de alguém”.

Ele e um sócio, Mario Caldas, de 52 anos, apertaram as mãos em março de 2015 e começaram a criar o protótipo para o mercado americano com a marca “Only”, no sentido de somente, simplesmente, naturalmente.

Os sócios fizeram um investimento inicial de cerca de US$ 50 mil para desenvolver carrinhos de acordo com os requerimentos do Departamento de Agricultura da Flórida. Eles trouxeram do Brasil a serpentina, ou “gela coco”, o abridor e o próprio carrinho. Foram meses para o equipamento ser aprovado, se tornando hoje o primeiro carrinho de água de coco licenciado e autorizado para operar no estado.

Acabam de contratar o primeiro funcionário fixo e receberam há poucos dias o selo de qualidade “Fresh from Florida”, ou “Fresco da Flórida”, dado pelo Departamento de Agricultura estadual para produtos locais, frescos e naturais. “Acho que, às vezes, as coisas mais simples são as mais geniais, mais inteligentes”, diz Cebrian.

Caldas, militar com 30 anos de serviço no Exército brasileiro, concorda: “O simples é uma palavra que a gente usa muito quando vai planejar uma operação.  Não comece a dificultar o seu planejamento, vá pelo caminho mais simples”, diz.  “Nossa ideia não é genial, é uma coisa óbvia que todo mundo quer, mas que nós resolvemos colocar a mão na massa e fazer acontecer. Tem uma estrada longa para caminhar e vamos ver o que nos espera pela frente”.

Cebrian, que trabalhou 18 anos em um banco, no mercado de câmbio, nunca imaginou que um dia venderia coco na praia, apesar da brincadeira que sempre escutou dos colegas do ramo. “O pessoal que trabalha no mercado financeiro brinca que um dia vai se aposentar e vender coco na praia.  Acabou que eu fiz isso”, diz, rindo. “Mas hoje acho mais interessante vender coco nos Estados Unidos do que operar moeda no Brasil.  Sinceramente, estou muito feliz”.

A rotina do economista mudou bastante. “Todos os meus trabalhos em banco eram muito restritos. Ficava num ambiente fechado de 12 a 14 horas por dia. Hoje, a gente está sempre na rua, em contato com o público, conhecendo gente de todo lugar.  É uma experiência diferente. Aprendi demais e não imaginava que tinha tanto a aprender”.

Depois de sete meses operando da garagem e trabalhando cada um em sua casa, eles alugaram um pequeno galpão.  Desde que o primeiro carrinho foi às ruas em outubro do ano passado, a empresa já participou de 11 eventos, abrindo até 200 cocos por ação, vendendo cada um, em média, a US$ 5.  Estão negociando a participação na Nascar em novembro, um evento de três dias, com um impacto econômico para a região de mais de US$ 300 milhões. A dupla já tem na agenda Boca Raton, Delray Beach e Sunny Isles, onde a empresa está aguardando a aprovação final para dois pontos fixos na Avenida Collins com a rua 193 e a 178. “Logo os carrinhos estarão nas entradas públicas da praia, de quinta a domingo, das 10h às 18h”, diz Cebrian.

O economista acredita que seu sucesso vem do poder de observação. “Sou muito observador. Quando você observa, se colocando na posição do outro, você muda seu ângulo. Quando você observa em 360º,  não olha só para sua necessidade, mas tenta ver a necessidade de um restaurante que vai querer ter nosso produto, desse consumidor, dessa pessoa”.

Já Caldas diz que o segredo do sucesso da dupla foi ver em uma coisa simples uma potencialidade para o mercado americano, junto com capacidade e vontade de trabalho. “Me sinto muito orgulhoso porque é uma parceria viável e a nossa vida militar traz isso na nossa bagagem. No Exército, seja coronel, soldado ou cabo, todos aprenderam a lavar um banheiro, a limpar uma cozinha, fazer uma comida. Todos aprenderam a meter a mão na massa”, relata.  “Então é gratificante para um coronel do Exército, retirado aqui nos Estados Unidos, estar vencendo por meio do seu próprio esforço, junto com um sócio que está suando a camisa, literalmente.  Nossa experiência vai continuar sendo uma experiência de campo. Quando crescer, vamos ter capacidade de entender exatamente como funciona tudo, passo a passo”, diz Caldas.

 

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