Em Miami, vive-se como brasileiro

CHRIS DELBONI – O ESTADO DE S. PAULO

15 Abril 2016 | 09h 51 – Atualizado: 15 Abril 2016 | 10h 52

Escola pública da cidade oferece currículo em português – e a procura dobra

O ditado “Em Roma vive-se como Romano” não se aplica a Miami.  Aqui, vive-se cada vez mais como brasileiro.

Valentine tem 10 anos e adora cantar em português – principalmente Como é grande o meu amor por você.  Ela é filha de colombianos. Nicholas, de 7 anos, e sua irmã Luma, de 8, nascidos em Miami, são filhos de brasileiros.  Nicholas diz que gosta muito de falar português. “Sou brasileiro”, comenta sorridente.

Shantal tem 8 anos. Sua palavra favorita é “bela”. “É uma palavra muito bonita”, diz a jovem venezuelana.

Gregory, 7 anos, diz que gosta de falar português com Gabriel e Nicholas, seus amiguinhos de escola.  “Quando eu ‘nasceu’, eu não sabia, mas tinha muitos amigos que ‘falava’ português”, diz ele.  “Eu vim nesta escola para aprender.”

Esses são alguns dos 80 alunos do programa bilíngue inglês-português da Downtown Doral Charter Elementary School, que abriu no ano passado.  A escola, que atualmente tem um total de 416 alunos, oferece duas opções de estudo: inglês-espanhol ou inglês-português.  Eles aprendem todas as matérias, como estudos sociais, ciências e matemática, nos dois idiomas de cada programa.

Algumas das crianças e pais que participam do programa bilíngue em português, entre eles uma colombiana e uma venezuelana
Algumas das crianças e pais que participam do programa bilíngue em português, entre eles uma colombiana e uma venezuelana

O interesse dobrou desde que a escola foi inaugurada.  Este ano, a instituição recebeu 1.561 inscrições para cerca de 180 novas vagas para os dois programas – entre o jardim de infância e a terceira série – para o ano letivo que começa em agosto. A expectativa é dar inicio às quarta e quinta séries entre 2017 e 2018, atingindo assim a capacidade máxima da escola, de 900 alunos.

E, apesar do programa de português ter um número de inscritos menor do que o de espanhol, todos os alunos querem participar das atividades brasileiras, como a Semana da Herança Brasileira, com apresentações e shows, o carnaval e o dia do brigadeiro, quando as crianças apreenderam a fazer o docinho.

“As crianças são orgulhosas de dizer que falam português. Isso é uma coisa muito legal, de você ver na criança o orgulho”, diz Adriane Silva, coordenadora do programa de português. “Quando elas veem os pais tão empolgados, por elas estarem cantando uma música que eles nem se lembravam direito, eles ficam encantados, emocionados, e as crianças mais motivadas”.

 

Miriam Aguiar, uma das mães envolvidas na PIPA (Portuguese International Parents Association, ou Associação Internacional de Pais do Programa de Português), concorda e diz que essa imersão cultural facilita o aprendizado. “Esse lado cultural é super importante para as crianças e faz com que elas se sintam mais parte do Brasil, mais em casa, mais parte da cultura”, diz a carioca, em Miami há 8 anos.

Simone Campos, de São Paulo, tem dois filhos na escola: Gregory, 7 anos, e Patrick, 4. “Eu sabia que com o tempo eles não iam aprender a escrever perfeitamente do jeito que eu gostaria – então aqui foi uma oportunidade, até na verdade uma responsabilidade – porque estão dentro da escola e vão ter que aprender a escrever”, diz ela.

Doação. A escola recebeu uma doação de US$ 10.959,53 para aquisição de 578 livros didáticos e de literatura, em português, da empresária e filantropa Stella Holmes, uma iniciativa assegurada pelo embaixador Hélio Vitor Ramos Filho, cônsul-geral do Brasil em Miami.

Sala de aula tem bandeiras do Brasil e dos EUA
Sala de aula tem bandeiras do Brasil e dos EUA

“A iniciativa insere-se na política do Consulado-Geral em promover a difusão do português e da cultura brasileira na Flórida”, diz Ramos Filho, que em 2013 se reuniu com Alberto Carvalho, superintendente do sistema de escolas públicas do condado de Miami-Dade, para discutir a possibilidade de ampliação da oferta de aulas de língua portuguesa na região. “Proposta calorosamente recebida por aquele interlocutor”, diz o cônsul-geral do Brasil.

Além de acesso aos livros, os alunos também recebem computadores laptop ou tablets que levam com eles para estudar, pesquisar e fazer as lições de casa.

Avós. Uma das lições recentes para os brasileiros foi ligar para os avós no Brasil e conversar em português, pedindo que descrevessem suas casas. “Neste mundo que a gente vive hoje em dia, nesta comunidade global, a língua da sua família é muito importante. O idioma é fundamental para que tenham contato com os familiares no Brasil”, diz Adriane, formada em letras, com extensa experiência no ramo bilíngue.

Antes de assumir a coordenação do programa de português na escola de Doral, ela trabalhou como professora na Ada Merritt, a primeira escola bilíngue inglês-português em Miami. “Se não sabem falar, não entendem a cultura, vão estar isolados”.

E isso vale também para as famílias de origem hispana que falam espanhol em casa. No processo de aprendizado de um novo idioma, aprendem uma nova cultura, o que é enriquecedor, diz Giselle Perez, mãe de Valentine. “É uma oportunidade única poder estudar numa escola internacional, com essa integração. Minha filha está aprendendo português e canta como brasileira. Aquele dia ela era brasileira”, diz Giselle, orgulhosa, se referindo à apresentação da filha cantando Como é grande o meu amor por você.  “Ela agora quer tudo do Brasil”.

A PIPA teve 100% de adesão, cerca de 65 a 70 famílias de todos os alunos do programa de português da escola, diz Juliana, a líder da associação na escola em Doral. “Acho que no futuro essas crianças vão poder trazer o melhor que o Brasil tem porque estão aprendendo aqui dentro da escola, com toda cultura, com todas as atividades que a gente faz, a melhor parte do Brasil”, diz ela.  “Acho que a parte cultural, do respeito –  quando as crianças falam do Brasil, elas têm vontade de conhecer, e lá na frente quando forem fluentes nas duas línguas, vão poder realmente desbravar o Brasil pelo lado do melhor. É lindo.”

Desde que entraram na escola, seus filhos não aceitam mais falar inglês em casa. “Por que você esta falando comigo em inglês? Você não falou que tem que falar só em português?”, cobram da mãe.  “Acho que isso é o diferencial que a gente vê no aprendizado”.

Twitter @chrisdelboni

Serviço:

Downtown Doral Charter Elementary School

8390 NW 53 Street, Doral, FL 33166

+ 1 (305) 569-2223

Para mais informações sobre a escola, visite: http://www.ddces.org/ 

Processo de seleção: Para inscrever a criança, preencha o formulário no link para “admissions” [http://www.ddces.org/DownTown/admissions] e entre em “admissions”.  A criança vai entrar na lista de espera para o ano letivo que começa em agosto.  Havendo desistência e abrindo vaga, sua inscrição entra no sorteio para seleção dos novos alunos.

Uma escola “charter” nos Estados Unidos é gratuita para todos os alunos – é uma escola administrada por uma empresa privada, mas com fundos e fiscalização do governo local.

Para mais informações sobre o Centro Cultural Brasil-USA, que há quase 20 anos trabalha em prol da disseminação da língua portuguesa e cultura brasileira, visite o site do CCBU [http://www.centroculturalbrasilusa.org].

 

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