A ‘dupla vida’ de Diogo Brown, brasileiro que leva o samba funk para os EUA

CHRIS DELBONI – O ESTADO DE S. PAULO

15 Maio 2015 | 09h 38

Músico de Niterói, que tem composição na trilha da novela ‘Babilônia’, faz sucesso com a banda Batuke Samba Funk em Miami

Quando Everaldo Oliveira de Azevedo tinha cerca de 9 anos, sua mãe, dona Conceição, perguntou se ele queria de presente de Natal um teclado para desenvolver seu gosto pelo piano ou uma prancha de surfe.

“Ai, mamãe, adoro prancha, adoro surfe, mas acho que quero um teclado”, respondeu o menino, que desde pequeno era chamado de Diogo, e não pelo seu nome de batismo, e hoje é conhecido no mundo artístico como Diogo Brown, em homenagem a James Brown, o músico americano apelidado de “padrinho do soul” e “pai do funk”.

Diogo tocava de ouvido – e lembra que sua primeira música no teclado foi o jingle das Lojas Arapuã. O músico é filho biológico de dona Zilda e seu Dunga.  Mas seus pais, muito jovens, moravam no morro em Niterói e não tinham condição de criá-lo.  Dona Zilda, que havia sido recomendada para trabalhar de doméstica na casa de dona Conceição, acabou dando Diogo para a família, de classe média.

Dona Conceição tinha dois filhos – também não era casada, mas mantinha um relacionamento estável com seu José, oficial de marinha, que Diogo considera seu padrasto.  Valéria, a filha, na época com 23 anos, foi com a mãe buscá-lo ainda na maternidade.  O outro irmão, Cláudio, tinha 26 quando Diogo chegou. E assim cresceu Diogo – entre dois mundos.

O músico carioca Diogo Brown, que faz sucesso na trilha da novela ‘Babilônia’

O músico carioca Diogo Brown, que faz sucesso na trilha da novela 'Babilônia'.  Foto: Marisa Arruda Barbosa.

O músico Diogo Brown faz sucesso na trilha da novela ‘Babilônia’. Foto: Marisa Arruda Barbosa.

A família de criação, branca, lhe proporcionou uma vida estável e bons estudos. Em casa, nunca sentia a menor discriminação, mas, na rua, a história era outra. “Chegava na escola, onde 99% dos alunos eram brancos – e você é o único de cabelo sarará, é engraçado – e aí já mostra um certo preconceito”, diz.  “Mas é parte da realidade que a gente vive que não tem jeito e [discriminação] existe mesmo.  Quem fala que não tem, papo furado, tem sim”.

Mas isso ele não sentia quando passava fins de semana com seu Dunga, negro, que chegava todo orgulhoso com o filho na favela. “Tinha meus 9, 10 anos, e ele [pai] vinha sempre me buscar – aquilo para mim era o máximo, ele me apresentava, eu chegava lá e era o rei da comunidade”, conta. “Era muito pobre lá, tomavam banho de bacia, só que aí meu pai liberava para eu ir para o samba, baile funk com minhas primas.  Era uma realidade dura, porém muito legal.”

E a convivência com essa realidade foi fundamental para sua formação. “Sempre tive a referência do gueto, graças a Deus e graças a ele [seu Dunga].  Isso me deu uma raiz, um pé, coisas que eu não veria se estivesse vivendo do outro lado só”, diz.  “Ele me passava essa noção de caráter, de base, de chão.”

Já na casa de dona Conceição, Diogo vivia o mundo internacional.  Seu José viajava muito e chegava com caixas de fitas.  Escutava Miles Davis, Ella Fitzgerald e Frank Sinatra, entre muitos outros nomes considerados sinônimos de qualidade na música.

“Essa dupla vida me acrescentou muito”, diz Diogo, que hoje, com 34 anos, reconhece que é justamente essa mistura de experiências – de vida e de música – que vem influenciando muito sua carreira como músico, baixista e compositor.  “Eu tenho duas vertentes: jazz brasileiro, que é o samba jazz, e a vertente do samba funk, que é o que faço hoje com o maior amor e muito carinho.”

A surpresa mais recente foi que uma das composições de seu primeiro CD solo Daqui Pro Mundo, de 2007, a música “O Samba de Nós Dois”, em parceria com João Falcão gravada por Daniel Chaudon com participação de Mart’nália, foi escolhida para entrar na trilha sonora da novela Babilônia da Rede Globo.  E por coincidência, a música toca em algumas cenas do personagem Diogo (ator Thiago Martins), mesmo nome do compositor.

“Eu tive muita sorte com essa musica”, diz o músico. Mas, mais do que sorte, Diogo tem muita determinação – e talento. Com cerca de 14 anos, foi numa festa e um amigo entregou um baixo para ele tocar.  Mas nunca tinha nunca nem tocado no instrumento. Começou a brincar e adorou.  Chegou em casa e falou: “Mãe, quero ser baixista. Comprei um baixo de R$ 10, tinha duas cordas”, diz, rindo.  “Era tudo que eu precisava.” Logo ganhou um, mais novo, de quatro cordas, comprado num brechó, por R$ 40. Daí em diante, a música tem sido sua vida e carreira.

Sempre com o apoio sólido da sua mãe Conceição, que disse: “Quer ser músico, então vai ter que estudar música e estudar inglês”. Diogo estudou na Escola de Música Villa-Lobos e no Conservatório de Música do Estado do Rio de Janeiro.

E hoje agradece não só o apoio, mas a rigidez da educação familiar. Em 2007, Diogo mudou-se para Miami – e lições de música, de inglês e de vida têm sido fundamentais para seu sucesso no exterior.

Ele fundou a Batuke Samba Funk, uma banda brasileira que tem conquistado espaço em Miami, principalmente nos últimos cinco anos, que veio para ”’abrasileirar’ sons americanos e ‘funkear’ os sons brasileiros em uma combinação entre as duas culturas do funk e do samba, promovendo cada vez mais a cultura brasileira mundo afora”.  A banda é composta de seis músicos, atualmente todos brasileiros, e, através do projeto, Diogo está conseguindo trazer o “samba funk”, ou mais conhecido no Brasil como “samba-rock”, para os Estados Unidos – ao mesmo tempo que se vê levando sua música “do mundo” de volta para o seu País, fechando o ciclo que começou em 2007 com seu CD Daqui Pro Mundo, quando se mudou para o exterior.

Em outubro, Batuke Samba Funk vai fazer a primeira turnê brasileira e lançar o CD e clipe Soul Carioca, também título de uma música (que traduz “alma carioca”, mas soa como “sou carioca”, de autoria de Diogo Brown, Cezar Santana e Brian Wolfe).

O clipe foi gravado entre o Rio de Janeiro (Morro de Santa Marta) e Miami.  Diogo diz que hoje está realizando seu sonho de “simplesmente ser músico”. “Fama, sucesso, isso pra mim não me interessa – a minha preocupação é estar fazendo um trabalho do qual eu possa ter minha vida baseada na música.  Fico feliz por isso.”

Nenhum outro sonho? “Jorge Ben Jor é meu mestre – é um sonho conhecê-lo.  Se perguntar qual artista que você vai beijar o pé, é ele. A gente tem toda a obra dele no computador e metade em vinil, agora quero pegar o resto da obra em vinil.  Ele ouviu nosso som, curtiu muito”, diz.

Para conhecer mais o trabalho do Batuke Samba Funk, visite: http://www.batukesambafunk.com.

Twitter: @chrisdelboni

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