Carioca vive sonho americano e vira herói de jovens imigrantes indocumentados que querem completar os estudos nos Estados Unidos

Por Chris Delboni | Coluna Direto de Miami (http://colunistas.ig.com.br/diretodemiami)

O carioca Felipe Sousa Matos ficou muito conhecido aqui nos Estados Unidos pela caminhada de mais de dois mil quilômetros que fez de Miami a Washington para reivindicar o direito de jovens imigrantes indocumentados, como ele, acesso às universidades americanas. Mas este foi, para o brasileiro, apenas um trecho de um caminho muito longo que vem percorrendo desde pequeno.

Tinha 6 anos quando recebeu a primeira grande lição de vida. Sua mãe, faxineira no Rio de Janeiro, o fez entregar para uma outra criança que passava fome na rua o único pão que eles tinham. “Não tínhamos dinheiro para comprar outro pão”, diz Felipe. “A gente tinha muito pouco.  Quase nada”.

Na época, ele não entendeu o gesto da mãe, mas se lembra com clareza das sabias palavras de dona Francisca: “Você tem que ajudar o próximo.  Se você quer mudar o mundo, todo dia você tem que dar o máximo que pode, sem olhar para trás”.

Felipe, em Oakland, no ano passado. Fotos: Cortesia/album de família

Felipe, em Oakland, no ano passado. Fotos: Cortesia/album de família

Hoje, aos 26 anos, Felipe reconhece que aquela atitude moldou o seu caráter e o tornou quem ele é.  “Cresci com minha mãe dizendo que eu tinha que compartilhar tudo que conquistava com todos ao meu redor, e que tinha que estudar”, conta.  “Eu lembro que ela sempre me dizia que a única forma de sair da pobreza era através da educação”.

E assim foi.

Felipe hoje é um líder estudantil, um defensor das causas homossexuais e um herói na luta pelo direito de milhares de jovens imigrantes que querem continuar os estudos universitários nos Estados Unidos, muitas vezes o único país que eles conhecem.

Sua caminhada ao lado de três amigos em janeiro de 2010 para reivindicar a aprovação do “DREAM Act” – projeto de lei que daria direito à educação superior para jovens imigrantes – resultou no primeiro passo para essa conquista: a “Ação Diferida”, uma Ordem Executiva da Casa Branca, que entrou em vigor este mês e pode permitir que mais de um milhão de jovens sem documentação nos Estados Unidos, ou seja, considerados ilegais pelas autoridades americanas, consigam permissão temporária de trabalho por dois anos.  [Veja abaixo link do Consulado do Brasil em Miami com mais informações em português e todos os requisitos para obter a documentação].

“Não é uma solução definitiva”, diz Felipe.  “Só o Congresso pode implementar uma solução definitiva, mas já é alguma coisa”.

E para Felipe, muita coisa.  É sua chance de realizar seu grande sonho de seguir adiante com os estudos para se tornar um professor universitário.

Ele mandou seus documentos para o Departamento de Segurança Interna semana passada.  “Acho que vou conseguir”, diz, sorridente e confiante, características que sempre marcaram e guiaram desde menino sua vida, que nunca foi fácil.

Durante o discurso no Miami Dade College, 15 de agosto, dia em que a "Ação Diferida" entrou em vigor. "O papel azul é minha documentação", diz orgulhoso

Durante o discurso no Miami Dade College, 15 de agosto, dia em que a “Ação Diferida” entrou em vigor. “O papel azul é minha documentação”, diz orgulhoso

Felipe nasceu no Rio de Janeiro.  Os pais se separaram quando tinha apenas 2 anos e ele foi morar em um quitinete com a mãe e as irmãs mais velhas.  Anos depois, quando as irmãs já tinham saído de casa, ele se mudou com a mãe para uma casa em Duque de Caxias.  “Não estava construída por completo. Não tinha muro nem janela direito”, diz ele.  “A gente colocava plástico na janela para que quando chovesse não entrasse água”.

Quando Felipe tinha 12 anos, sua mãe passou a ter uma dor crônica nas costas e não podia mais trabalhar como antes, então, ele começou a fazer o que podia para colocar dinheiro em casa: distribuía panfleto político, limpava casa, cortava grama.  “Trabalhava no que dava”, diz Felipe.

Mas, sua mãe estava muito preocupada com os estudos do filho: “Minha mãe sempre foi muito rigorosa”, diz ele.  “Se eu chegasse em casa com qualquer coisa menos do que uma nota 10, ela brigava comigo”.

Assim, aos 14 anos, Felipe foi morar em Miami com uma das irmãs, que já estava há alguns anos na cidade.  Conseguiu visto de turista, e pegou o vôo para os Estados Unidos, amedrontado e com um grande aperto no coração.  “Tinha medo de nunca mais voltar”, diz.  “Lembro que entrei naquele avião e chorei por oito horas”.

Ao desembarcar, recebeu um conselho de Claudia, sua irmã, hoje com 36 anos: “esse é um país que todos seus sonhos podem se realizar.  A única coisa que você tem que fazer é se manter focado e estudar”.

Felipe entendeu que o sucesso estaria em suas mãos e levou essas palavras muito a sério.

Ele só tirava nota máxima nas matérias, ganhava prêmios na escola e estava pronto para entrar na faculdade quando se deu conta que, como imigrante indocumentado, ele não tinha acesso ao ensino superior. Mas não desistiu.

Felipe passou mais de um ano trabalhando em restaurantes como garçom,  lavador de pratos e limpando casas nos fins de semana para juntar dinheiro.  Até que um amigo comentou sobre um programa especial no Miami Dade College.  Conseguiu vaga e bolsa de estudos e começou a cursar relações internacionais.  Mais uma vez, se superou: abriu uma associação na faculdade para ajudar crianças necessitadas e arrecadou fundos para construção de uma escola na África, continuou ganhando prêmios de melhor aluno e chegou a presidente do Grêmio Estudantil.

Saiu com diploma de dois anos, que é o máximo do curso oferecido no Miami Dade College, e esperava seguir para uma universidade de quatro anos.  Só que de novo, outra decepção.  Tinha as notas para ser aceito nas grandes faculdades americanas mas não tinha dinheiro.  Como imigrante sem documentos, o custo seria três vezes maior.

Perdeu mais um ano até que a amiga de uma amiga comentou sobre um programa especial da Universidade St. Thomas, em Miami.  Foi aceito imediatamente com bolsa parcial.  Dos US$25 mil por ano, a faculdade daria US$15 mil.  Mas ele não desistiu e conseguiu uma segunda bolsa de mais US$7 mil por ano e completou o pagamento com seu trabalho.

Felipe se formou em economia e administração em maio, quando realizou um outro sonho: casou-se oficialmente com seu companheiro Juan.  A festa foi em Miami e a cerimonia em Massachusetts, onde o casamento gay é legal.

Felipe, no dia do casamento, ao lado do marido, Juan Rodriguez

Felipe, no dia do casamento, ao lado do marido, Juan Rodriguez

Felipe com a irmã Claudia, na festa de seu casamento com Juan

Felipe com a irmã Claudia, na festa de seu casamento com Juan

“Eu sinto, no meu coração, muita gratidão. Eu tive oportunidade de ter uma mãe muito boa, duas irmãs que me amam e que me ajudaram a ver a vida de uma forma melhor”, diz.  “A cada etapa de minha vida, tive sempre um anjo que caiu do céu, do nada, e conseguiu me ajudar naquele período.”

E agora, Felipe sente que é sua vez de ser esse anjo para milhares de pessoas injustiçadas.

“Embora o mundo inteiro diga que temos que ser individualistas, eu sempre aprendi o contrário.  Só vou conseguir melhorar minha vida pessoal se a comunidade inteira também estiver bem”.

E Felipe segue sua luta.

Presente de casamento do artista Julio Salgado. "Amor não é ilegal"

Presente de casamento do artista Julio Salgado. “Amor não é ilegal”

Serviço:

O Consulado-Geral do Brasil em Miami tem informações detalhadas em português sobre a “Ação Diferida”, o programa do governo norte-americano para a suspensão temporária de deportação de jovens imigrantes.  Veja no link da pagina de noticias.

Para informações de como obter uma carteira de matrícula consular, clique aqui.  O documento é valido em qualquer lugar dos Estados Unidos e reconhecido pelo governo americano.

* Texto originalmente publicado pelo portal de notícias iG.com.br na coluna Direto de Miami

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